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Coluna de Rodrigo "Japa" Santos: Comer é um ato político e cozinhar é a revolução!

  • Foto do escritor: Jornal Mauá Hoje
    Jornal Mauá Hoje
  • 15 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura
Rodrigo "Japa" Santos       Foto: Reprodução
Rodrigo "Japa" Santos Foto: Reprodução

Alimentar-se é essencial para a sobrevivência de qualquer espécie viva. Mas nós, humanos, fomos além: politizamos e problematizamos até o que deveria ser a base da vida. Ao desenvolvermos a capacidade intelectual e a necessidade de acumular riquezas, transformamos a alimentação em instrumento de divisão, controle e dominação.


No mundo animal, há espécies que vivem em bandos e outras que vivem sozinhas. Em ambas, a comida é apenas um meio de sobrevivência. Animais que caçam ou coletam em grupo compartilham o alimento de forma igualitária. Os que vivem sozinhos buscam seu sustento diariamente. Em todos os casos, só se obtém o necessário — não há sobra, não há armazenamento.



Foto: Reprodução/ GL Food
Foto: Reprodução/ GL Food

Já a espécie humana desenvolveu mecanismos para dominar o planeta. Em 2024, a população mundial ultrapassou 8 bilhões de pessoas. Nossa capacidade de produção de alimentos cresceu junto: não dependemos mais da caça ou da coleta. Somos a única espécie que cultiva seu próprio alimento. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), em 2022 produzimos cerca de 5 bilhões de toneladas de comida. Isso é muito mais do que os 2,5 a 3,5 bilhões de toneladas necessários para alimentar todo o planeta com uma dieta saudável de 2.500 calorias diárias.


Ou seja: teoricamente, ninguém deveria passar fome. Deveríamos até ter sobra para alimentar outras espécies. Só que não.


A ONU estima que 2,3 bilhões de pessoas vivem em insegurança alimentar — não têm acesso a comida suficiente e nutritiva. Pior: 673 milhões não têm absolutamente nada para comer. Ao mesmo tempo, cerca de 30% de todo o alimento produzido é

desperdiçado e vai parar no lixo.



Foto: Reprodução / GL Food
Foto: Reprodução / GL Food

Isso não acontece por falta de capacidade, mas por escolha. Criamos tecnologia, multiplicamos a produção, mas também transformamos tudo em moeda — inclusive a comida. Produzimos não para nutrir, mas para vender. E assim, o acesso à alimentação deixou de ser um direito e se tornou um privilégio: quem tem dinheiro, come. Quem tem mais dinheiro, come melhor.


E a fome se tornou arma. Recentemente, vimos Israel impor fome à população de Gaza. Segundo o IPC, 2,1 milhões de palestinos vivem insegurança alimentar aguda e 670 mil estão à beira da morte. Mais de 71 mil crianças sofrem desnutrição grave. Enquanto isso, o resto do mundo assiste, enrolado em bandeiras, sentado no sofá, comendo pipoca.


Cozinhar é um ato de amor. Para quem vive da cozinha, não há sensação melhor do que ver alguém sorrir ao provar um prato que preparamos. É transformar trabalho em prazer para outro ser vivo. Por isso, deveria nos doer profundamente saber que há pessoas morrendo por não terem o que comer. Já sentiu fome? Já passou um dia inteiro sem comer? Sabe aquela fraqueza, o mau humor porque não conseguiu almoçar na hora certa? Imagine sentir isso por dias, sem perspectiva, com a vida se esvaindo.



Foto: Reprodução / GL Food
Foto: Reprodução / GL Food

Se a comida é usada para separar ricos e pobres, cozinhar para quem precisa é um ato de resistência. Apoie ações humanitárias. Participe de cozinhas comunitárias. Não desperdice. E, acima de tudo, não defenda quem usa a fome como arma de guerra ou tortura. A fome é a mais cruel e desumana das armas. E a única espécie capaz de produzir seu próprio alimento também é a única capaz de usá-lo para destruir a si mesma.

Pense nisso.





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