Coluna de Rodrigo "Japa" Santos: Escala 5x2: adequação do mercado de trabalho é fundamental para o país continuar a crescer.
- Jornal Mauá Hoje
- 23 de dez. de 2025
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Eu sempre acreditei que família são pessoas que decidem se amar e dividir a sua estadia nesta vida. Meus três irmãos, em algum momento, decidiram que seríamos uma família, e assim é: dividimos histórias, momentos, sonhos e planos.
Dia desses, me peguei pensando em como o tempo é impiedoso. Há uma semana atrás, éramos jovens, jogando videogame no quarto de casa. Hoje somos adultos, eu sou tio, alguns casaram, e a vida mudou muito. Aquele tempo em que nos víamos e nos falávamos todos os dias passou. Nos vemos e nos falamos bem menos agora, e eu sinto que estou perdendo momentos. Não consigo acompanhar como gostaria o crescimento dos meus sobrinhos, não conversamos mais sobre tudo, não passamos mais tanto tempo na companhia uns dos outros.

Muito tem se falado sobre a geração Z. Essas pessoas têm valorizado algo que a minha geração negligenciou e continua negligenciando: qualidade de vida. Tirando a pequena parcela da sociedade que tem muito dinheiro e que, por isso, consegue se manter mais próxima da família, a geração millennial afundou suas vidas no trabalho, abrindo mão do convívio social. Isso aconteceu, em parte, pelo desejo de melhorar as condições financeiras, mas também pelo sistema imposto aos trabalhadores dessa geração, que os mantém seis dias por semana presos aos seus empregos, muitas vezes com longas horas de deslocamento, somadas a horas extras intermináveis. Para a nossa geração, tudo parecia aceitável até que uma nova geração surgiu questionando esse modelo e dizendo que não está disposta a abrir mão da própria qualidade de vida. Isso coloca em xeque o mercado de trabalho atual, tornando escasso o número de candidatos para vagas no regime 6x1 e criando um hiato no mercado de trabalho.
Parte dos empresários e pessoas saudosistas se mantém irredutível quando o assunto é a adoção da escala 5x2. Não percebem que essa mudança hoje é fundamental para que a oferta de mão de obra volte a se estabilizar. Outra parte do mercado já entendeu que essa adaptação é necessária para acompanhar o comportamento das pessoas. Mesmo sem obrigatoriedade, adequaram seus contratos de trabalho e têm colhido resultados positivos: pessoas mais motivadas, mais empenhadas e com menor rotatividade. Na ponta do lápis, economizam com treinamentos frequentes, tiveram queda nas faltas injustificadas, reduziram o número de rescisões e processos trabalhistas, além de contar com funcionários com melhor saúde física e emocional.

Para que esse debate aconteça, é necessário que o país abra mão das paixões políticas. Essa discussão não é de direita ou de esquerda. Ela envolve o mercado de trabalho como um todo e afeta tanto o empresário quanto o trabalhador. O fato é que o formato atual não é mais eficaz. Deixar a polarização e o discurso extremista de lado é o primeiro passo, tanto para o trabalhador, que deseja mais tempo e melhor qualidade de vida, quanto para o empresário, que precisa de mão de obra estável e motivada.
Um exemplo prático disso é a rede Chilli Beans. Depois de um período de testes, a empresa adotou, em agosto deste ano, a escala 5x2. Em entrevistas recentes, Caito Maia, fundador e CEO do grupo, deixou claro que esse movimento não tem relação com seu posicionamento político. A decisão foi tomada com base em números, que apontavam as principais dificuldades na manutenção das operações e os caminhos para contornar esses problemas. Adequar-se à nova realidade do mercado de trabalho foi fundamental para que a empresa continuasse crescendo.

A mudança da escala de trabalho certamente será um dos debates mais importantes do próximo período, se quisermos que o país continue a se desenvolver. Discutir isso com responsabilidade, coerência e lucidez é o único caminho para que possamos chegar a uma solução viável.
Dia desses, eu conversava com um jovem sobre trabalho e refletimos sobre o quanto o trabalho era central para os millennials. Sobre como aprendemos a romantizar o burnout, como fomos doutrinados a trabalhar “como se fôssemos donos” e como o trabalho se tornou a nossa vida. Não era um meio de vida, era a própria vida. No meio da conversa, ele me perguntou: “E aí, valeu a pena?” Quanto mais pessoas fizerem essa pergunta, menos candidatos haverá para trabalhos em escala 6x1. O colapso já está em curso. Será que a vaidade e a intolerância, que têm nos afastado cada vez mais, não nos permitirão encontrar uma saída como nação? Fica a reflexão.










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