top of page

Coluna MH Artes/J.Estel Santiago- Yasuichi Kojima: Um mestre de muitas artes

Foto do escritor: Jornal Mauá Hoje
Jornal Mauá Hoje
há 21 horas
3 min de leitura
Oficina de Ikebana com Yasuichi Kojima. 17/07/2026. Pinacoteca de Mauá.    Crédito: acervo pessoal
Oficina de Ikebana com Yasuichi Kojima. 17/07/2026. Pinacoteca de Mauá. Crédito: acervo pessoal

Faleceu na tarde de 28 de setembro Yasuichi Kojima, aos 92 anos, um dos

pioneiros da produção artesanal de porcelana em Mauá.

Natural de Tajimi, província de Guifu, Japão, chegou ao Brasil em 1953, aos 19

anos, trazendo consigo o sonho de construir uma fábrica de porcelana. Filho de

Shigueo “Juho” Kojima, que atuou no Instituto de Pesquisa da Cerâmica e

Porcelana de Guifu e estudou técnicas tradicionais com o mestre Kato Koubei,

recebeu do pai conhecimentos que ajudariam a preservar o processo japonês de

fabricação da porcelana aqui no Brasil.


Em 9 de abril de 1960, realizou sua primeira queima de peças, e pouco tempo

depois sua produção alcançou diversas regiões do país, especialmente restaurantes

japoneses, contribuindo para consolidar a relação de Mauá com a porcelana e para

a construção do epíteto “Mauá, Cidade da Porcelana”.


O legado da Família Kojima preservou técnicas tradicionais japonesas de fabricação

de porcelana e tornou-se referência para a história da cerâmica e do patrimônio

cultural de Mauá. Em 10 de dezembro de 2020, esse legado obteve reconhecimento

público por meio de seu tombamento enquanto patrimônio imaterial municipal,

processo do qual participei enquanto membro titular do Condephaat.


Seu Kojima também foi mestre da escola Ikenobo de Ikebana, a mais antiga e uma

das principais tradições japonesas da Ikebana. Com “Kojima Kouka”, como era

conhecido entre os praticantes de ikebana, tive meu primeiros contatos com essa

prática, e por seu intermédio pude florescer nesse caminho.


Sua trajetória, porém, não se limitou à porcelana e à ikebana. Seu Kojima também

foi artista plástico e manteve grande amizade com Manabu Mabe, além de conviver

com outros importantes artistas nipo-brasileiros, como Nakajima e Takaoka. Essa

trajetória se desenvolveu em meio a uma geração de artistas nipo-brasileiros que

reúne nomes como Tomie Ohtake e Flávio Shiró, responsáveis pela presença da

arte nipo-brasileira no cenário artístico brasileiro a partir da década de 1960.


Mas conhecer a história de Seu Kojima era algo que nunca parecia se esgotar. A

cada conversa surgia uma nova informação, uma nova habilidade ou um capítulo de

sua trajetória que até então me era desconhecido, como se sua história não

pudesse ser contada de uma só vez e ele próprio, aos poucos, fosse revelando suas

diferentes qualidades conforme nossa amizade se aprofundava.


Em uma dessas visitas, por exemplo, revelou algo que eu jamais imaginaria: Seu

Kojima produziu uma katana completa! Lâmina, cabo e bainha, uma das obras mais

incríveis que pude ver entre toda sua produção. Mas Seu Kojima não contou aquilo

como quem revela uma façanha extraordinária, e sim com a naturalidade de quem

acrescenta mais um capítulo à sua própria história.


Aquela katana acabou se tornando para mim uma espécie de síntese de quem era

Yasuichi Kojima. Um homem que parecia carregar dentro de si a força, a habilidade

e o conhecimento de muitas vidas: a porcelana aprendida com o pai, a Ikebana, as

artes plásticas, enfim, as tantas técnicas e conhecimentos que ele revelava quase

sempre inesperadamente durante nossas conversas.


Quanto mais eu o conhecia, mais eu percebia a grandeza de sua trajetória e mais o

admirava. Essa é uma das lembranças mais bonitas que guardarei dele, da

sensação de que sempre havia mais uma história surpreendente esperando para

ser descoberta de maneira leve e harmoniosa, do mesmo modo pelo qual ele

parecia conduzir sua própria vida.


Yasuichi Kojima era um mestre em muitos sentidos. Mestre porque dominava

técnicas que recebeu de seu pai e que fez questão de preservar; mestre porque

transmitia conhecimento; mestre porque transitava entre a porcelana, a ikebana e as

artes plásticas; e mestre, sobretudo, pela maneira como marcava as pessoas que

tinham a oportunidade de conhecê-lo.



J. Estel Santiago – cerimonialista, mestre-de-cerimônias e gestor cultural, é pós-graduando em Artes, bacharel em Relações Públicas e em Direito, e tecnólogo em Gestão Pública.

Especialista em Comunicação e Redes Sociais, além de Direito Constitucional, é servidor

público municipal.






Comentários


bottom of page