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Coluna MH Nos Trilhos de Mauá : História em Movimento - As Escolas de Mauá nas décadas de 1960 e 1970: educação em tempos de Ditadura, memórias afetivas e o barro vermelho

  • Foto do escritor: Jornal Mauá Hoje
    Jornal Mauá Hoje
  • 12 de set. de 2025
  • 4 min de leitura
Foto: Reprodução
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Na Mauá das décadas de 1960 e 1970, a vida escolar era, ao mesmo tempo,

desafio e descoberta. Quem viveu por aqui nessa época certamente guarda

lembranças dos emblemáticos Viscondão e Viscondinho — apelidos

carinhosos de duas escolas que marcaram gerações, eternas rivais (Nos

jogos escolares, comuns naquela época, a rivalidade se tornava ainda maior,

com as torcidas acabando por se agredirem física e verbalmente!)


Embora ambas levassem o nome oficial de Escola Estadual Visconde de

Mauá, carregavam diferenças bem claras para quem as frequentava. O

Viscondinho nasceu primeiro, voltado para os anos iniciais do que hoje

chamamos de Ensino Fundamental Ciclo I — da 1ª a 4ª série, o Primário. Já

o Viscondão era destino daqueles que conseguiam passar pelo chamado

curso de Admissão, um ano preparatório obrigatório para ingressar no antigo

Ginásio, atual Ensino Fundamental Ciclo II. Na prática, isso significava um

verdadeiro funil. Poucos chegavam lá: a maioria dos estudantes encerrava

os estudos no 4º ano e seguia direto para o mercado de trabalho.


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A aprovação na Admissão era uma conquista rara — e muitas vezes, um

privilégio de quem podia pagar por aulas particulares. “Lembro do meu

irmão, Gilmar, que teve a sorte de estudar com a respeitada e querida

professora Dona Neuza Antico”, nos conta Cecília. Mas em 1971, esse

modelo mudou: a Admissão foi abolida e os alunos passaram a transitar

diretamente do Primário para o Ginásio.


O berço de tudo isso era um antigo casarão ao lado da lendária Paineira

(árvore que se tornou símbolo da cidade e, anos depois, foi tombada como

patrimônio histórico de Mauá). O prédio, alugado pela família Magini nos

anos 1930, abrigou a primeira escola de Mauá — que se transformaria no

Viscondinho. Quando este ganhou sede própria, o casarão ficou vago, dando

lugar ao nascente Viscondão, no início dos anos 1960. O prédio original foi

demolido em 1978, mas permanece vivo na memória de quem o frequentou.


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As festas juninas das escolas eram um verdadeiro evento na cidade. No

Viscondão e no Viscondinho, a festa se estendia pelo fim de semana:

quadrilhas, barracas, bingo, bazar, prisão e o infame pau de sebo, que

premiava quem conseguisse vencer o desafio escorregadio. As prendas

vinham do comércio local, após pedidos oficiais das escolas. As turmas

competiam pela arrecadação, e a classe campeã ganhava um passeio de

excursão.


Com o tempo, outras escolas estaduais surgiram, expandindo-se para os

bairros mais afastados e ajudando a consolidar a educação pública na

cidade.

Além desses emblemáticos colégios, merece destaque o SESI 264, que

atendia estudantes da 1ª à 8ª série. Estudar no SESI era uma bênção para

famílias de baixa renda: lá ofereciam cadernos, lápis, borrachas, canetas e

até lápis de cor (artigos caros à época). Os livros, no entanto, ainda

precisavam ser comprados, o que limitava o acesso de muitas crianças à

escola. Assim, não eram raros os casos de abandono por falta de recursos.


Foto: Reprodução
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As professoras do SESI também davam aula nas escolas estaduais. E havia

uma regra rígida: sem uniforme, sem aula. Para as meninas, saia pregueada

azul e camisa branca; para os meninos, shorts ou calça azul com camisa

branca. A blusa de frio era de lã, azul-marinho. O uniforme de Educação

Física era saia pregueada branca (bem curta), shorts branco com elástico

também nas pernas, e camiseta branca, para as meninas. Para os meninos

era calção e camiseta brancos. Nos pés, o famoso conga azul-marinho com

a ponta branca.


O SESI 264 operava em três turnos, tamanha era a demanda: das 7h às 11h,

das 11h às 15h e das 15h30 às 19h30. Esse último turno era voltado aos

alunos do Ginásio. “Durante dois anos, estudei nesse horário. Chegava em

casa perto das oito da noite. O jantar, já servido para os demais membros da

família, me esperava aquecido em banho-maria - aquele carinho de mãe que

nunca se esquece”, rememora Cecília.

No fim de 1975, o SESI encerrou suas atividades como escola, e seus

alunos foram distribuídos entre o Viscondão, a Escola Iracema de Barros

Bertolaso e a Escola Odila Bento Mirarchi, ambas já em funcionamento

desde a década de 1960.


Foto: Reprodução
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Barro vermelho, tombos e sacolas


Frequentar a escola, no entanto, exigia mais do que cadernos e uniforme. A

aventura começava no caminho. “Para quem, como eu, que morava na Vila

Noêmia, o trajeto até a escola passava por ladeiras de barro — como a atual

Avenida Francisco Ortega Escobar (antiga Rua Tangará) e a Rua Ribeirão

Preto, ambas sem calçamento ou drenagem. Nos dias de chuva, o barro

vermelho tornava-se um inimigo escorregadio. Roupas manchadas, tombos e

frustração faziam parte do pacote”, conta Cecília.


“Nossas mães desenvolveram uma estratégia criativa: levavam os filhos com

roupas velhas e o uniforme limpo dobrado dentro de uma sacola. Na escola,

lavávamos os pés, trocávamos de roupa e só então entrávamos para a aula.

Na volta, o processo era o inverso. Só depois que as ruas receberam guia e

sarjeta pudemos sair de casa já uniformizados”, explica a professora de Arte.


Foto: Reprodução
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O Viscondão e os Tempos da Ditadura


Em 1976, Cecília ingressou no Viscondão. A diretora na época era a

professora Therezinha Sartori, que viria a falecer algum tempo depois. Em

sua homenagem, a escola passou a se chamar oficialmente E.E. Profª

Therezinha Sartori — embora continue sendo, com afeto, o velho Viscondão.


Era tempo de ditadura militar, e o medo rondava até as salas de aula. O

Professor Augusto, que lecionava História, tinha por hábito abrir a porta da

classe, olhar para os corredores e só então começar sua aula –

especialmente quando o assunto era “delicado”. O cuidado era necessário:

denúncias eram frequentes e, com elas, o risco de desaparecer.


O sistema de som instalado nas salas de aula levava recados direto da

diretoria para os alunos. “Foi por esse microfone que, ao lado do meu colega

de classe (e futuro marido) Edson Bueno de Camargo, tive a honra de ler um

texto em tributo à Dona Therezinha, escrito pelo então diretor Professor

Gilson. Um momento inesquecível!”, relembra Cecília.


A escola era também um espaço de encontros e afetos. Muitos colegas se

tornaram namorados, casais, companheiros de vida. E até hoje, ao se

reencontrarem pelas ruas de Mauá, é possível aos estudantes de outrora

reviverem histórias que moldaram o caráter e enraizaram a memória do povo

de Mauá, cidade que, como os estudantes dos anos 1960 e 1970, também

cresceu.

Colunistas de Nos Trilhos de Mauá : História em Movimento :


Cecília A. B. Camargo      Foto: Reprodução
Cecília A. B. Camargo Foto: Reprodução
Jorge S. C. Sequeira (Estel Santiago)       Foto: Reprodução
Jorge S. C. Sequeira (Estel Santiago) Foto: Reprodução


1 comentário


Orlando Almeida
Orlando Almeida
28 de set. de 2025

Excelente matéria. Fui aluno da quarta série do Viscondinho aí na Rua General Osório em 1962, já aos doze anos, tendo migrado do interior para Mauá onde residiam os avós maternos e tios e primos. Depois fiz o curso de Admissão no SESI da Rua Japão, ao lado da Porcelana Mauá. Depois em 1965 comecei o Ginásio no prédio velho (da Paineira) e logo em seguida mudamos para o prédio novo onde até hoje fica o Viscondão. Todo meu estudo no Viscondão foi no período noturno de 1965 a 1971. Em 72 fiz cursinho em SP e em 73 entrei na ESALQ USP de Piracicaba onde cursei Engenharia Agronômica. Saudade de tudo e de todos. Tenho parent…

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