Coluna MH Nos Trilhos de Mauá : História em Movimento: Quando estudar era privilégio : Memórias do ensino privado em Mauá
- Jornal Mauá Hoje
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Hoje, Mauá conta com uma ampla rede de escolas particulares. Mas nem sempre foi assim — e olhar para trás ajuda a entender o quanto o acesso à educação foi, por muito tempo, limitado e desigual.
Ainda na década de 1910, havia na cidade uma escola noturna de alfabetização que funcionava na casa de propriedade do senhor Antico, onde hoje é a Praça Conde Francisco Matarazzo (a popular “Praça dos Aposentados”, ao lado do Marco 1925). Ali também se localizava a antiga porteira da estação ferroviária de Mauá.
A primeira escola de curso regular surgiu com o Colégio Barão de Mauá, criado pelo empresário Abraão Kasinski, proprietário da COFAP. O objetivo inicial era claro: atender aos filhos de seus trabalhadores. Com o tempo, a escola se expandiu, abriu vagas para outros estudantes, criou o ensino noturno e cursos técnicos. A reputação de escola de qualidade atravessou décadas e permanece até hoje.
Somente em abril de 1970 Mauá ganharia seu segundo colégio particular: o Humberto de Campos. O contexto não era dos mais amistosos. Na década de 1970, a rivalidade entre escolas públicas e particulares era intensa. Corria pelas ruas (nem sempre com boas intenções) a ideia de que, nas escolas privadas, “pagou, passou”. A frase carregava a percepção de que o ensino público era mais rigoroso, enquanto o privado seria mais permissivo. Uma simplificação injusta, mas bastante comum naquele período.
Durante muitos anos, Barão de Mauá e Humberto de Campos foram as únicas opções de ensino particular na cidade. Apenas mais tarde surgiriam instituições como Leonardo da Vinci, Método e Objetivo, ampliando, ainda que timidamente, as possibilidades educacionais em Mauá.
Seguindo essa linha do tempo, o Colégio Monsenhor Alexandre Venâncio Árminas tem uma trajetória singular. Iniciado em 1956 como escola paroquial infantil, expandiu-se em 1969 com o curso de Aprendizagem de Enfermagem, seguido pelo curso Técnico em 1972. O curso regular, no entanto, só seria implantado em 1980 — dez anos depois daquele iniciado pelo Colégio Barão, apesar de sua origem mais antiga.

Naquele tempo, concluir o então “segundo grau” (o atual Ensino Médio) era privilégio de poucos. Já nos anos 1970, as vagas eram insuficientes. Quem concluía a oitava série em escolas que ofereciam o Ensino Médio seguia automaticamente. Os demais precisavam enfrentar o “vestibulinho”, uma prova de admissão que selecionava apenas os melhores colocados. Muitos ficavam pelo caminho.
Os cursos técnicos tinham papel central na região. Nas décadas de 1970 e 1980, a industrialização exigia mão de obra qualificada, muitas vezes mais valorizada do que a formação acadêmica. O grande sonho de boa parte da juventude era simples e concreto: fazer um curso técnico e conquistar uma vaga em uma das fábricas da região.
Havia ainda o Curso Normal, o antigo Magistério, responsável pela formação de professoras e professores — um curso majoritariamente feminino, reflexo dos papéis sociais da época.
E a escola também era festa! Os bailes de formatura marcavam época, reunindo famílias e estudantes no Cine Teatro Symaflor, no Clube Independente, no Clube Industrial ou no elegante Buso Palace, em São Caetano do Sul.
Mas nada disso era barato: uniformes, materiais e livros eram pagos. O ensino, definitivamente, não era para todas e todos. Ainda assim, a escola era profundamente valorizada. Estudar era visto como a única chance real de ascensão econômica e social — tanto ontem como ainda nos tempos de hoje.
Cecília mantém viva a imagem do avô Manoel, pai de sua mãe, que havia estudado apenas até a quarta série. Com o olhar firme de quem conhecia bem os limites impostos pela falta de oportunidades, ele costumava dizer, em tom de conselho e esperança: “Estude, minha filha, porque só vale quem estuda!”
Uma frase simples, direta, mas que atravessa gerações e sintetiza, com precisão e humanidade, o sentido mais profundo deste relato.
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