Coluna MH Artes/J.Estel Santiago -IMAGINÁRIO E RECONSTRUÇÃO: MERYLIN ESPOSI EXPLORA TENSÕES DO FEMININO
- Jornal Mauá Hoje
- há 15 horas
- 2 min de leitura
Com referências surrealistas, exposição na Pinacoteca de Mauá articula corpo, memória e imaginação — propondo reflexões sobre violência e reconstrução simbólica da mulher

Logo na entrada do foyer do Teatro Municipal, atual sede da Pinacoteca de Mauá, A Anfitriã recebe o público e inaugura o campo simbólico da exposição Ato I: Em cena, de Merylin Esposi, aberta até o dia 5 de abril.
Elementos de natureza surrealista articulam tensões simbólicas que se desdobram ao longo do percurso expositivo: o corpo feminino mutilado; pensamentos que ganham densidade e se apresentam como corpos e caixas; e as artes como meio para ressignificação da vida.
A composição geométrica se organiza pela repetição rítmica de motivos, que se expandem e estruturam o campo visual, estabelecendo um ritmo constante nas obras da artista e organizando imagens em sequências visuais reiteradas. Áreas com hachuras, linhas concêntricas e espirais produzem sensação de volume.
Tons vermelho-terroso que dominam o fundo de algumas obras densificam a composição e orientam a percepção do observador: o marrom evoca territórios, ancestralidade e materialidade, ancorando a narrativa da artista em uma dimensão histórica e cultural que remete à formação da sociedade brasileira.
Além de telas, desenhos e estudos revelam aspectos do processo de criação, ampliando o conhecimento do público e aproximando-o do universo poético da artista. Dois manequins com jaquetas pintadas expandem o trabalho de Esposi para outros suportes, ampliando a dimensão expositiva da obra.
A convivência entre ordem geométrica, fluidez orgânica e repetição decorativa produz um campo visual onde a figura humana parece simultaneamente construída e em transformação. O resultado é uma imagem que oscila entre reconhecimento e estranhamento, característica recorrente do Surrealismo, movimento voltado à exploração das dimensões do inconsciente, do sonho e das associações inesperadas.
Assim, as figuras representadas na obra de Merylin Esposi deixam de ser apenas retrato ou personagem, passando a constituir um território simbólico no qual diferentes estruturas visuais convivem e se tensionam, sugerindo múltiplas camadas de leitura e interpretação.
A exposição dialoga com importante discussão da sociedade contemporânea, com potencial não só no cenário mauaense, mas regional e nacional, que é sobre a violência contra a mulher. Contudo, ao invés de mergulhar no sofrimento, nas dores e em traumas, a artista propõe, por meio de sua linguagem visual, uma reconstrução simbólica da autoestima, do afeto e da alegria, transformando a experiência da dor em matéria poética.







Comentários