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Coluna MH Nos Trilhos de Mauá: Entre livros, poesias e encontros: a formação cultural em Mauá para além das escolas

  • Foto do escritor: Jornal Mauá Hoje
    Jornal Mauá Hoje
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Em décadas marcadas pelo acesso restrito à educação formal, iniciativas comunitárias e grupos culturais independentes ajudaram a construir a vida intelectual e artística da cidade


Membros do Colégio Brasileiro de Poetas que frequentavam o Grêmio Monteiro Lobato - Acervo de Aristides Theodoro
Membros do Colégio Brasileiro de Poetas que frequentavam o Grêmio Monteiro Lobato - Acervo de Aristides Theodoro

Na Mauá das décadas de 1960 e 1970, ainda marcada por limitações no acesso à educação formal e por um cenário em que estudar ainda era privilégio de poucos, surgiam também espaços alternativos de formação cultural e intelectual. Nesse contexto, diferentes agremiações e grupos, muitas vezes sem registro oficial, reuniam-se para debater ideias, compartilhar leituras e promover ações de interesse comum, criando redes de sociabilidade em uma cidade em transformação.


Uma das iniciativas mais significativas em Mauá foi a biblioteca do Grêmio Cultural Monteiro Lobato, fundada em 15 de agosto de 1955, com o objetivo de incentivar o estudo, a cultura e o acesso aos livros em um período em que o deslocamento para outras cidades era difícil, e o conhecimento, restrito. O espaço funcionava, em grande medida, graças ao trabalho voluntário de Benedito Martins, o “Seu Dito”, natural de Amparo e residente em Mauá desde 1952, responsável pelo acervo e pela abertura da biblioteca, inclusive aos domingos (já que morava nos fundos do local). Sua dedicação transformou o local em um ambiente acolhedor, seguro e formativo.


A primeira sede do Grêmio esteve localizada na Avenida Barão de Mauá, na tinturaria de Izaltino Chicon. Passou para a Rua Rui Barbosa e finalmente se instalou na sala 3 do então nº 44 da Avenida Barão de Mauá.


Quando os livros ficavam muito desgastados pelo uso, Seu Dito os levava para o Seu Domingos Arnaldo Bedeschi, encadernador na Cidade, para serem transformados, desta vez recebendo capa dura com letras douradas que indicavam o título e autor da obra. Dessa forma, os exemplares eram preservados e permaneciam em circulação por muitos anos.


Envelope do clube filatélico com carimbo especial dos Correios
Envelope do clube filatélico com carimbo especial dos Correios

Em um tempo anterior à internet, o acesso ao conhecimento dependia quase exclusivamente de livros e enciclopédias, bens caros e pouco acessíveis à maioria da população. Nesse cenário, o Grêmio Monteiro Lobato cumpria papel fundamental como espaço de democratização do saber, sustentado por doações e pelo engajamento da comunidade.


Mais do que um centro de leitura acolhedor, o Grêmio se tornou um ponto de encontro para escritores e interessados em literatura, que ali se reuniam para leitura e discussão de textos. Esses encontros, por vezes estendidos a espaços informais da cidade, contribuíram para a consolidação de uma cena literária local. Desses espaços, um deles era o Bar do Iugo, que ficava embaixo do Grêmio.


Foi a partir dessa efervescência que em 19 de outubro de 1973, Moysés Amaro Dalva, Aristides Theodoro, Nelson Bergamaschi e os irmãos Castelo e Dirceu Hanssen fundaram o Colégio Brasileiro de Poetas. Ao longo da década, o grupo cresceu e passou a reunir nomes como Cecília e seu pai Domingos Arnaldo Bedeschi, Edson Bueno de Camargo, Iracema Mendes Régis, Alípio de Melo Pereira, Antenor Ferreira Lima e Samuel Fernandes de Aguiar.


Com encontros semanais e recitais de poesia, o coletivo tinha como objetivo a produção e publicação de antologias e obras autorais, inserindo a produção literária mauaense em circuitos mais amplos. À época, diversos integrantes foram premiados em Mauá e em outras cidades, consolidando a relevância do grupo.


Encerrado em 1985, o Colégio Brasileiro de Poetas deixou como legado uma tradição que seria retomada no início dos anos 2000 com a criação do grupo Taba de Corumbê. Reunindo membros remanescentes do Colégio e novos integrantes, como Macário Ohana Vangélis, Sarah Helena, Deise Assumpção e Jorge de Barros, o coletivo passou a produzir fanzines e publicações independentes, mantendo viva a produção literária local. As atividades do grupo se encerram após o falecimento de Edson Bueno, um dos membros mais ativos da Taba.


Paralelamente, outras expressões culturais também se organizavam na cidade nas décadas de 60/70, como o Clube Filatélico de Mauá, encerrado em 1979, formado por colecionadores de selos que se reuniam regularmente para trocar conhecimentos e incentivar o interesse das pessoas mais jovens pelo colecionismo.


Entre suas ações, destacou-se a realização da I Exposição Filatélica de Mauá, de 3 a 9 de setembro de 1979, em comemoração aos 25 anos de Emancipação da Cidade. O evento contou com o lançamento de um carimbo comemorativo pelos Correios, utilizado durante trinta dias nas correspondências locais, além da participação de colecionadores da cidade e região. Realizada nas dependências da Câmara Municipal, com apoio do então vereador Antônio Carlos Madureira, a mostra contou com selos de coleções de filatelistas de Mauá e região, incluindo Domingos e Cecília Bedeschi, Moacir Ferrari, Cláudio Santos, dentre outros, marcando assim mais um momento significativo da vida cultural mauaense.


Cecília A. B. Camargo      Foto: Reprodução   Cecília A. B. Camargo nasceu em Santo André, mas é mauaense de coração. Professora de Arte e curadora da Pinacoteca de Mauá, é especialista em Conservação e Restauro. Fotógrafa por vocação, é memorialista e escritora
Cecília A. B. Camargo Foto: Reprodução Cecília A. B. Camargo nasceu em Santo André, mas é mauaense de coração. Professora de Arte e curadora da Pinacoteca de Mauá, é especialista em Conservação e Restauro. Fotógrafa por vocação, é memorialista e escritora

Jorge S. C. Sequeira (Estel Santiago)       Foto: Reprodução                                                  Especializando em Artes, é bacharel em Relações Públicas e em Direito, e tecnólogo em Gestão Pública. Especialista em Comunicação e Redes Sociais, além de Direito Constitucional, é servidor público na área de Comunicação e Cerimonial. Na área cultural, atua com gestão de projetos, curadoria de exposições e escreve sobre artes
Jorge S. C. Sequeira (Estel Santiago) Foto: Reprodução Especializando em Artes, é bacharel em Relações Públicas e em Direito, e tecnólogo em Gestão Pública. Especialista em Comunicação e Redes Sociais, além de Direito Constitucional, é servidor público na área de Comunicação e Cerimonial. Na área cultural, atua com gestão de projetos, curadoria de exposições e escreve sobre artes

 

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