Coluna MH Artes/J.Estel Santiago-Povos da Terra: exposição destaca grafismos indígenas como expressões de identidade, saber e permanência
Na Pinacoteca de Mauá, “Povos da Terra – Segunda edição” reúne objetos, grafismos e narrativas que reafirmam culturas originárias para além de leituras estereotipadas

A Pinacoteca Municipal de Mauá apresenta a segunda edição da exposição “Povos da Terra”, prorrogada até 18 de junho. A proposta se destaca por não situar as culturas dos povos originários em um passado idílico, mas sim como parte ativa e pulsante dos territórios, revelando histórias que continuam sendo vividas, registradas e compartilhadas.
O ponto de partida da mostra é justamente a coexistência de povos que foram deslocados de suas terras e outros que chegaram à região do ABC por meio de migrações recentes. Em comum, a exposição evidencia a permanência de práticas, saberes e modos de vida de povos distintos que resistem às pressões da vida urbana, reafirmando vínculos culturais dos povos originários mesmo em contextos adversos, tais como o apagamento territorial, a violência contra povos indígenas e sua invisibilização no Grande ABC.
Entre os elementos que atravessam a mostra, os grafismos indígenas são o ponto central, apresentados para além da ornamentação e da estética. Presentes em diferentes suportes, do corpo humano a objetos do cotidiano, os grafismos enquanto forma de linguagem organizam narrativas, marcam pertencimento e expressam visões de mundo, integrados à vida cotidiana. O percurso narrativo evidencia essa relação ao reunir objetos de uso diário de diversas etnias (como peças de cestaria em palha, cocares e esteiras) com fotografias e pinturas em tela.
Ao lado dos elementos cotidianos, fotos de Ypituna Pankararu, telas de Jaime Trindade e grafismos de Cildo Oliveira e Pedro Coyote Kariri Xocó ampliam o campo visual da mostra, aproximando tradição da produção contemporânea. As telas de Jaime evocam a beleza, os símbolos, e a integração do ser com a natureza, ressaltando traços das culturas indígenas. As fotos de Ypituna registram o sagrado, enquanto Cildo e Pedro Coyote apresentam as simbologias de diferentes grafismos. Assim, a exposição desafia as classificações ocidentais que historicamente separaram arte, artesanato e objeto etnográfico.
Outro aspecto relevante de “Povos da Terra” está no caráter educativo da exposição. Durante as visitas mediadas, a Pinacoteca oferece aos participantes um mini-dicionário baseado no tronco Tupi-Guarani, em versão infantil, com ilustrações para colorir, e outra para o público adolescente, que reproduz a Cartilha Antirracista Nhandé Vaeté ABC. A iniciativa reforça a missão do equipamento cultural na difusão das artes plásticas, criando pontes de acesso e compreensão, especialmente para novos públicos. Ainda que consistente em sua proposta, a mostra perde parte de sua potência crítica pela ausência de contextualização dos artistas participantes.
Ao evitar leituras folclorizantes e estereotipadas, “Povos da Terra – Segunda edição” propõe um olhar mais atento às múltiplas presenças indígenas nos territórios, inclusive com a participação de representantes de diferentes etnias na constituição da mostra, tanto no empréstimo de peças quanto em sua construção expositiva.
Ao valorizar as culturas e trajetórias dos povos originários presente no Grande ABC, mesclando peças do dia a dia com produções voltadas à expressão artística, a mostra propicia a reflexão sobre o contraste entre a valorização estética das culturas indígenas e a persistente exclusão desses povos nos espaços urbanos e institucionais. Ao mesmo tempo, convida visitantes a reconhecer que essas narrativas não pertencem apenas à história; mesmo carecendo de mais espaços de ocupação, difusão e pertencimento, seguem vivas, transformando e sendo transformadas pelo espaço urbano.







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